terça-feira, 14 de junho de 2016

caderno de leituras: O que é que ele tem

eu tenho um sério problema de esquecer o conteúdo de livros que li, e os que não resenho ou não escrevo textos-pra-mim-mesmo acabam ficando no limbo da minha memória. daí surgiu a ideia de ir registrando tudo nesse blog ~que está sempre suuuper atualizado~. não espere resenhas ou análises de verdade. são comentários despretensiosos das minhas leituras, e só.

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O que é que ele tem, de Olivia Byington. 184 p. Objetiva, 2016.

Quem queria ler mesmo é a minha avó. Ela ama qualquer coisa que explore a vida privada desses famosos de mais de quarenta anos e resolvi presenteá-la assim que lançasse. Foi aí que surgiu a ideia de eu ler antes para termos um novo tópico de conversas, nesses tempos de cada vez menos coisas para contar já que a minha vida real não é a mesma vida que minha avó conhece.

Um plano excelente, no fim. Não é o melhor livro do mundo - embora bem trabalhado -, mas eu gosto muito quando relatos não-ficcionais me deixam alguns dias imerso num universo temático que eu dificilmente alcançaria por outros meios. Com O que é que ele tem, passei a pensar muito sobre paternidade de uma forma geral, mas especialmente sobre dar luz e criar uma criança diferente.

É justamente isso que aconteceu com a Olivia. Seu primeiro filho, o João, nasceu com síndrome de Apert, raríssima, que gera má-formação do crânio, mãos e pés. O livro nada mais é do que um relato não rigorosamente linear da vida da Olivia até agora, focando na trajetória de quase quarenta anos desde o nascimento de seu primogênito.

Algo que sempre me incomodou em qualquer obra que retrate uma pessoa com deficiência é que existem aqueles esterótipos podres: ou é uma bela & emocionante história de superação, ou a deficiência é apenas um empecilho narrativo para atingir a Vida Perfeita, ou a pcd em si é um objeto para que outras pessoas repensem as suas próprias vidas e se sintam melhores com elas mesmas. Aqui, são pouquíssimos esbarrões no sentimentalismo e, na verdade, os que existem fazem sentido.

Aliás, o espírito geral do livro vai na contramão de qualquer idealização; O que é que ele tem é uma jornada de uma mãe que, como todas as outras, esperava um filho "normal" - muitas aspas - e precisou aprender a amar a diferença. 

Há momentos em que o livro é chato. A Olivia é uma figura conhecida e claramente privilegiada desde que nasceu e as descrições da vida dela e do meio em que ela vive me davam preguiça. Por isso, o que eu reconheço de melhor no livro são as passagens em que a autora discorre sobre ser mãe de uma pessoa com deficiência e todos os ecos que essa reflexão teve em mim. 

A divulgação do livro é bem acertada nesse sentido. Mais do que a história da vida privada de uma famosa ou a trajetória de uma pessoa com uma síndrome rara, essa é uma história de um amor difícil, o amor pela diferença.

Aqui vai um trecho que me marcou bastante:

"(...) Não tenho a ideia de que ter um filho com deficiências é uma honra, como às vezes é para algumas pessoas. Também não deixo de ter alegrias com ele, de admirá-lo e amá-lo. Por vezes, tenho que confessar, sinto raiva de ter acontecido comigo e de ter passado anos da minha juventude numa batalha dolorosa para melhorar sua condição de vida em vez de estar me preocupando apenas em ser jovem e curtir a vida. São pensamentos que passam, e eu me forço a ter consciência disso sem me sentir culpada.

Olho para João e imagino que foi por um triz. Como teria sido a minha vida e a dele caso não tivesse havido esse acidente genético? Um menino de olhos azuis acinzentados, pele branquinha, cabelo louro-escuro, alegre e cheio de saúde. Uma jovem mãe como tantas outras, dedicada e feliz com o seu filhinho. Guardo ainda no fundo do peito a tristeza do momento em que perdi esse menino e deixei de ser essa mãe. Em algum lugar escondido há um sentimento de responsabilidade e culpa. São sentimentos distintos e confusos para traduzir. Em parte me sinto responsável pelo acidente genético, que afinal se deu dentro de mim. Também me sinto culpada por lamentar sua má-formação e sonhar com aquele filho que não nasceu. A razão nunca conseguirá apagar esses sentimentos tão profundos e contraditórios, mas tenho que visitá-los no porão. (...)"

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